Correr sem ver: um olhar sem fronteiras - TICTAG

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Arte com duas fotos Serginho corre com atleta guia e a guia Sheila em pé. à frente dela um coração. Está com camiseta escrito Atleta Guia.
10 ago, 2020

Correr sem ver: um olhar sem fronteiras

Correr sem ver: um olhar sem fronteiras foi publicada na Revista VOi de julho. Trabalho na revista desde março deste ano e não pude deixar de fora de contar a história da Radar DV, grupo que integra 26 pessoas com deficiência visual e 60 guias voluntários, entre eles eu, Brisa Teixeira, guia desde novembro do ano passado.

O maratonista Sergio Luiz Negreiros Dias, o Serginho, corre há 38 anos, participou de duas paraolimpíadas em 1984, em Los Angeles, e em 1988, em Seul, na Coreia do Sul, e já acumula mais de 26 maratonas. Nasceu com 50% da visão e a foi perdendo ao longo da vida. Hoje com 54 anos, possui apenas 10% de visão. Mas esse “detalhe” não o fez parar. A sua velocidade é de dar inveja a muito corredor que enxerga 100%. Ele faz 1 quilômetro em 4 minutos e 30 segundos, sendo que já foi 3 minutos e 20 segundos. Além de corredor, desde os 15 anos, acumula em seu currículo esportivo, 16 anos de futebol se salão com participação em dois torneios mundiais, sendo que, na Espanha conquistou com a sua equipe o 1.º lugar, no ano de 1988.

Alguns podem estranhar o fato de uma pessoa cega correr. A boa notícia é que isto é mais comum do que você imagina e eles estão aí, em todas as corridas de rua, para nos provar o quanto a atividade física faz parte da vida de muitos atletas nas suas mais diversas deficiências e performances, mostrando às pessoas que limite não existe para quem encara o fato de não enxergar, por exemplo, um empecilho. Em Curitiba existe até uma associação dedicada ao treinamento de pessoas com deficiência visual. É a Associação Desportiva Rede de Apoio ao Deficiente com Atividades Recreativas, mais conhecida como Radar DV Curitiba, sendo DV a abreviação de Deficiente Visual. Serginho além de fazer parte desta associação foi um dos fundadores junto com outros amigos com deficiência e sem deficiência visual.

Trata-se deum grupo de amigos que se uniu no início de 2016 em torno da ideia de promover a inclusão social das pessoas com deficiência visual por meio do esporte em caminhadas e corridas de rua. Hoje o grupo é formado por 60 voluntários, que são os olhos das 26 pessoas com deficiência visual que compõem a equipe.

O objetivo é o de promover a atividade física para esse público e trazê-los para o convívio social. Os encontros acontecem sempre aos sábados pela manhã, ao lado da Academia do Parque Barigui, e quando há as corridas de rua, geralmente no domingo pela manhã, lá está o Radar DV marcando a sua presença não só nas ruas como no pódio. Premiações são criadas especialmente para a categoria de maneira igualitária às outras categorias de faixas etárias.

Paulo Guerra é um dos guias que esteve desde o início da fundação do Radar DV. Segundo ele, o esporte escolhido foi a corrida de rua por ser uma atividade democrática, de fácil acesso, baixo custo, bastante difundida e apoiada por muitas das Secretarias de Esporte Municipais, Estaduais e Federal entre outras organizações.  Ele conta que a equipe é composta de paratletas iniciantes, intermediários e de alta performance, como ultramaratonista.

Ao longo desses 4 anos, a Equipe Radar já participou de mais de 200 corridas. “Desde 2016, estivemos presentes em todas edições da Corrida de São Silvestre, e meias maratonas do Rio, das Cataratas, de Toledo entre outras, bem como nas Maratonas de Curitiba e até fora do Brasil”, destaca Paulo Guerra, lembrando que em 2018, guiou a atleta Silvana, na Meia Maratona de Lisboa.

Nosso propósito principal é motivar a participação das pessoas com deficiência visual a “abandonar o sofá”, proporcionando melhoria na qualidade de vida, fuga do sedentarismo e todos os seus males como depressão, obesidade, hipertensão, entre outros. “Queremos mostrar que as pessoas com deficiência são sim capazes e devem ser tratados com dignidade”, diz Paulo Guerra. Com o tempo o grupo ficou conhecido passou a receber a atenção de outros atletas, que agora os reconhecem e os motivam durante as provas.

“Embora na equipe tenhamos atletas de alta performance, nosso alvo mesmo é atrair pessoas que gostam de correr e que estejam em busca de superações pessoais, aderindo ao mundo de caminhadas e corridas. Como guias, nosso papel é o incentivo e a motivação”, diz. Segundo ele, muitas pessoas com deficiência visual que aproximam do nosso grupo, embora não acreditando que possam conseguir, fazem as primeiras iniciações com o acompanhamento dos guias e, em pouco tempo, estão vencendo os primeiros 5 quilômetros. “Depois ninguém os seguram mais”, comemora o guia.

Outro guia fundamental na equipe do Radar DV é Helcio Luiz Croseta. Ele conta que o papel de um guia de cegos em competições é vital. Guia há 4 anos, desde que começou a se dedicar ao projeto, Helcio leva essa missão como prioridade nas suas atividades esportivas. Ao lado do amigo e guia Eugenio Rotondo, eles são responsáveis pela formação de novos guias dentro da Radar.

“O foco principal é não desligar em momento algum tendo em sua mente que naquele momento seus olhos são os olhos de seu amigo ou amiga DV”, ensina Helcio. Os demais ensinamentos, conta ele, são complementares e importantes na condução como: informar ao DV sobre todos os obstáculos que estão à frente dele conduzindo com segurança, assim como observá-lo quanto ao seu estado físico durante a prova e deixá-lo em estado de equilíbrio físico e mental.

Quer ser um atleta guia?

Guiar um atleta DV (deficiente visual – corretamente chamado de pessoa com deficiência) é mais fácil do que parece e mais gratificante do que se imagina. Para isso basta uma pequena corda que unirá o pulso do guia ao atleta, além de força de vontade, responsabilidade e concentração. Diria ainda que um bom fôlego, pois muitas pessoas com deficiência visual tem um pique, que muitos guias não conseguem acompanhar. Por isso, é ideal encontrar um PcD (Pessoa com Deficiência) com o pace um pouco abaixo do seu para que o guia não fique para trás. Portanto uma das regras é que o pace do atleta-guia seja 30 segundos mais rápido de quem ele está guiando. Ou seja, se você faz 1 quilômetro em 6 minutos, deve procurar alguém para você guiar que faça o mesmo tempo em 6 minutos e 30 segundos.

Confira outras dicas:

  • Em primeiro lugar vem a sua responsabilidade pela segurança de quem está guiando e, em segundo plano, a sua performance.
  • Domínio e técnica são importantes para passar para o DV confiança para que ele corra com tranquilidade ao seu lado.
  • O atleta-guia deve estar ciente que, nas corridas de rua, a prova é do atleta DV, por isso o atleta-guia não se inscreve, nem corre com chip na prova e, consequentemente, não recebe a medalha de participação e nem o troféu. O mérito é a sua satisfação pela conquista da pessoa com deficiência visual.
  • O atleta-guia deve estar atento a obstáculos no solo como: buracos, trocas de piso, desníveis, tampas de bueiro, pedras soltas, terreno irregular. Obstáculos envolta como placas de sinalização baixas, postes, galhos de árvores. Durante o percurso, haverá pessoas transitando no sentido contrário, pessoas mais lentas no mesmo sentido, ciclistas, crianças, animais, enfim o que tiver pela frente.
  • Nos dias de treinos ou provas, nunca usar fones de ouvidos ou outro dispositivo que possa distrair a sua atenção, isto pode causar acidentes com você e com o atleta DV.
  • O seu trabalho voluntário vai além de estar com ele só na hora do treino ou da prova. É preciso verificar como seu atleta DV pretende chegar até o local. Ver se precisa de carona e ajudar a organizar esta carona com colegas que morem na região, proximidades do caminho.
  • Todo atleta DV obrigatoriamente deverá participar da Corrida acompanhado por Atleta Guia, atrelado por uma Fita Guia conforme Norma 07 da CBAt.
  • Aproveite o passeio. É importante que o atleta-guia vá descrevendo e contando por onde está passando (exemplo: prédios públicos, pontos turísticos, praças).
  • Desfrute destes momentos, que são para poucos. E principalmente: se orgulhe de você mesmo, por ser os olhos de outra pessoa, isso não tem preço.

O Radar DV pelos guias

“Guiar uma pessoa com deficiência visual é uma troca constante de energias. E quando estamos juntos, guia e DV se transformam em um único conjunto em movimento. Braços e pernas em sincronismo, para transpirar, sorrir, compartilhar, viver enfim!”
Eugenio Rotondo

“O Radar DV hoje é minha segunda família. Grandes amigos, grandes irmãos tenho ali. O Radar representa o início de um novo aprendizado de vida. Aprendemos com eles a cada dia o que eles têm a nos ensinar.”
Helcio Luiz Croseta

“O meu propósito vai além de ensinar técnicas de corrida a esses atletas sensacionais. Quero proporcionar-lhes a verdadeira inclusão e o respeito que tanto merecem. Quem somos, se não pudermos nos doar aos outros.”
Sheila Teivfik

“O ato de correr como guia é bastante gratificante, a gente se dá um pouco e recebe um muito. Passa a entender de fato o significado da palavra superação. Já que gosto de correr por que não compartilhar minha visão, meu braço, minhas pernas e meu fôlego?”.
Paulo Guerra

O Radar DV pelos DVs

“A corrida só me trouxe benefícios. Estava com excesso de peso e colesterol alto. Consegui eliminar 20 quilos e melhorei a minha saúde. Os guias doam o seu tempo para nos ajudar. Dependemos 100% do guia para correr.”
Luzia Prado

“Os guias são espelhos para nós, sem eles não poderíamos correr. O Radar DV é uma motivação para eu continuar a correr, estar em contato com os meus amigos e os incentivar a correr também”.
Sergio Luiz Negreiros Dias (Serginho)


“O Radar DV para mim é TDB – Tudo de Bom! É minha vida social, esportiva. Tenho os ‘anjos olhos guias’, que correm comigo e vemos que somos todos iguais: eu, cega, e eles que enxergam.”
Silvana Maria Rosa

“Sempre gostei de fazer esportes. Importante para poder participar mais de corridas de rua, se reunir com pessoas com deficiência visual. Trouxe uma estabilidade, mais saúde, vida, disposição! Enfim, é tudo!”
Alceu Rolim

*** Quer saber mais sobre o Radar DV Curitiba? Acesse a página da associação no Facebook: facebook.com/equiperadardvcuritiba  

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